segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O nosso drama dinamarquês

Até pouco tempo atrás eu tinha três referências da Dinamarca. Uma delas advinha da não lidas e conhecidas frases da peça Hamlet. A outra era o Tivoli Park, pois como carioca nascida na década de 80 me diverti muito no saudoso Tivoli Parque na Lagoa Rodrigo de Freitas. A terceira era o nome Kopenhagen, que batiza a rede de chocolates finos, mais acessível no Brasil – da qual minha avó adora Nhá Benta, correspondendo também à cidade onde foi realizada recentemente a convenção internacional sobre mudanças climáticas.


O que Hamlet tem haver com isso? Nada. Só resolvi contar que eu não sabia e continuo sem saber muita coisa sobre a Dinamarca. A peça de Shakespeare transcende a qualquer espelho temporal de uma determinada sociedade européia. Tampouco a sociedade inglesa da época aparece retratada ou criticada. Shakespeare fala da condição humana que é fixada em uma dimensão paralela ao palpável, porém tangível aos nossos sentidos.

Hamlet poderia ter sido um príncipe em qualquer lugar do planeta (excluindo as culturas que ligam a morte corporal à transmutação da alma). O assunto não é local, é universal. Quiçá interplanetário.

O drama – e põe drama nisso – possui todos os elementos de um enredo clássico bem construído. Há a imagem do herói terreno (aquele que prestas contas quando morre, pois uma vida de glórias carrega consigo tantos pecados quanto forem necessários), o assassinato, o usurpador, a contestação da moralidade, a vingança disfarçada de insanidade, o jogo de palavras, as referências às tradições mitológicas ocidentais, o amor, a disputa e o grande final.

É um drama e a isso é confirmado a cada ato. O bem e o mal parecem mais relativos que nunca. Sensacional a ironia sobre uma espécie de cegueira que a ânsia de cumprir uma ordem pode causar na forma e na substância das pessoas. A fidelidade é tema que também se discute nas entrelinhas dos diálogos.


Alguns trechos são como tapas, outros como o colo da mãe na plenitude da segurança e carinho. E até agora estamos falando de palavras escritas. As palavras em Hamlet adquirem novos significados à medida que o tempo passa, há nelas o peso da tradição literária e dramatúrgica, há nelas a leveza de serem entendidas na altura do peito.

É isso. Coração é a resposta para uma pergunta que nem escrevi aqui. O Shakespeare falou através da razão direto ao meu coração. Segue um trecho para deleite:

HAMLET


Eu a receberei, senhor, com toda disponência. E pode colocar o cobre-crânio onde é devido – na cabeça.


OSRIC


Agradeço a vossa senhoria: mas faz tanto calor.


HAMLET


Não, pode crer, faz muito frio; venta do norte


OSRIC


Só agora percebo, meu senhor, faz mesmo um friozinho.


HAMLET


Para meu temperamento está até bem quente e abafado.


OSRIC


Excessivamente, meu Príncipe – está até sufocante – como se fosse... em nem sei dizer como. (...).

Indico:

William Shakespeare - Hamlet

Tradução Millôr Fernandes.

P.s. Preciso agradecer uma pessoa que não conheço. Seu nome é Paula Date e ela vive no Estado do Texas, EUA. A edição que li foi dela anos atrás e veio com registros preciosos acerca do significado de palavras e expressões. Tudo muito organizado. Adoro a Paula porque para ela leitura é coisa de uma vida.

P.s. 2 Antes da leitura tive o privilégio de conhecer duas brasileiras que possuem laços estreitos com a Dinamarca. Uma delas, Ana, uma dentista do sorriso bonito e coração de ouro, me convenceu a assistir a um determinado filme cruzando o Atlântico e isso me fez muito bem. A outra, uma farmacêutica mineira com cara de dinamarquesa, tem a elegância e a paz que só os grandes possuem. Conhecemos-nos e conversamos. Parecia encontro marcado.


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